A chegada que demorou cinco anos
- Quellen Herek

- 15 de mai.
- 2 min de leitura
Quando me perguntam como é acordar em Cunha, eu digo que é a melhor sensação do mundo.
Abro a porta do meu quarto e dou de cara com o verde, com o sol, com os pássaros e com a minha rede que está ali, sempre me esperando na varanda.
Mas essa chegada não foi simples. Ela demorou cinco anos para acontecer.
Em 2021, numa leitura de Registros Akáshicos, acessei uma vida passada a muitos milhares de anos, onde andei por essas terras como uma sacerdotisa da Deusa. Havia uma caverna onde eu dedicava meus cultos a Hekate. Naquele ano de 2021, parei de procurar casa em qualquer outro lugar. Sabia que tinha encontrado a minha.
Cunha, para mim, não é apenas uma cidade. São montanhas que me remetem à Deusa na sua feminilidade e imponência. São vários tons de verde, cheiro de terra úmida e árvores antigas. É um chamado que eu não escolhi ignorar.

Vim com medos reais. O medo de não conseguir prover meu sustento, de passar necessidades, de não ser bem recebida pela cidade. Não pelas pessoas, mas pela própria terra, pelas energias de Cunha. Quem caminha espiritualmente sabe que território tem memória e nem sempre abre os braços de imediato.
Deixei para trás a praticidade de São Paulo. A facilidade de querer comer algo e ter na porta de casa. O metrô disponível quando o tédio batia. A Serra da Cantareira, o Jaques Café, os almoços de domingo no Babo com aquela vista. Essas coisas ainda fazem falta e não tenho vergonha de dizer.
Estou aqui desde fevereiro de 2026. São apenas três meses, mas o silêncio da Serra e a forma como a neblina vai chegando de mansinho já me ensinaram mais sobre presença e calmaria do que qualquer prática espiritual que eu tenha feito sentada.
Nessa mudança, morreu a Quellen que esperava que os outros provessem sua vida, que pagassem suas contas, que dessem sustentação. Nasceu a Quellen provedora, que corre atrás para pagar o aluguel, fazer o mercado e sobreviver. Ainda está sendo turbulento. Mas a natureza ao meu redor me dá forças quando mais preciso.
Se eu pudesse falar com a Quellen que ainda estava hesitando, eu diria: guarde mais dinheiro e não ouça o que os outros falam. Siga seu coração e não tenha medo de ir sozinha.
Tem momentos aqui em que penso: é por isso que eu vim. Acender uma fogueira na porta da cozinha com os pés no chão. A vida que me cerca. A natureza inteira ao redor.
Não foi uma fuga. Foi uma chegada. A mais verdadeira que já fiz.
Quellen Herek — Guardiã do Templo da Lua, Cunha/SP



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