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O que não foi dito por anos

Nota de 2026: Este texto foi escrito em 2019, depois de assistir a um filme que mexeu fundo comigo e me deu coragem de nomear o que havia vivido. Seis anos se passaram desde então. Faço terapia há anos e continuo fazendo. Passei por processos longos e dolorosos, inclusive com ayahuasca, e consegui transmutar muita coisa. Publico hoje porque acredito que histórias verdadeiras libertam quem as conta e quem as lê. Se você passou por algo parecido, saiba que não está sozinha.


ATENÇÃO: Este texto contém relatos de abuso sexual e violência psicológica. Se você não se sente confortável, não continue.


Ontem fui ao cinema assistir O Escândalo. Me senti mal, me senti revoltada, com raiva daquilo, com raiva daquelas pessoas.

O filme trata dos assédios sexuais de Roger Ailes, ex-presidente e chefe-executivo da Fox News. O que me deixou com o estômago embrulhado é como mulheres de todos os tipos e de todas as classes sociais são violadas, ignoradas e tratadas como objeto. Para conseguir o que quer, tinha que subir o vestido, andar de mini saia, mostrar as pernas. Essa era a rotina das mulheres que trabalhavam na Fox News.


Não estamos falando de 100 anos atrás. Estamos falando de 2016. Quatro anos antes desse texto.

Esse filme mexeu muito mais fundo do que um simples caso na TV. Hoje vou contar as duas histórias mais doloridas da minha vida.


Primeiro abuso: nem cinco anos de idade. Ex-marido da minha tia.

Amava ir para a casa da minha tia, amava o sítio onde ela morava. Era muito criança quando tudo começou. Ele começava a se roçar em mim, passava a mão pelo meu corpo e eu, criança, encarava aquilo como carinho. Até que um dia ele tentou a penetração e eu saí correndo, fui para o banheiro, chorei e nunca mais fiquei perto dele. Durou uns dois anos. Ele pediu para eu não contar. E eu não contei até muito depois.


Segundo abuso: doze anos de idade. Meu padrasto.

Em uma noite, havia uma festa na casa do vizinho. Resolvi vir mais cedo e fui dormir. Acordei com alguém passando a mão em mim. Me virei e a pessoa havia sumido. Fingi que estava dormindo e ele enfiou a cabeça pela porta: você estava acordada? Saí gritando. Minha mãe veio, quebrou um copo na cabeça dele e o expulsou.

Dias depois fomos à delegacia. Ela fez o boletim de ocorrência. Tiramos dezenove cópias (totalizando vinte documentos iguais). Chegamos em casa e ela pediu para ele vir conversar. Sentamos os três à mesa. Ela colocou o boletim na frente dele e disse: tenho mais dezenove cópias. Se você for embora e me deixar com seus dois filhos aqui sozinha, vou até a sua família e mostro isso.

Meu amor e confiança pela minha mãe foram embora ali, naquele instante.

Fui obrigada a conviver com ele por mais três anos. Ele destruiu meus livros, quebrou meu som, espantava meus amigos. Minha mãe me batia, me culpava, me sobrecarregava. Em uma conversa, contei a ela sobre o ex-marido da minha tia. Ela se enfureceu com ele. E eu perguntei: qual é a diferença do que ele fez para o que seu marido fez? Ela não respondeu.

Em outra conversa, falei: mãe, vai chegar o dia que você terá de escolher entre eu ou ele. Ela respondeu: você já sabe qual é a minha escolha. Não vou deixar seus irmãos sem pai.

Decidi sair de casa nesse dia. Engravidei do meu ex-marido e quando peguei o teste de gravidez nas mãos, foi como uma carta de alforria. Estava livre.

Em nenhum momento da minha vida pensei que a culpa fosse minha. Porque nunca foi. A culpa é dos estupradores e da cúmplice.

Tive longos e dolorosos processos na ayahuasca para conseguir transmutar tudo que sentia por eles. Consegui perdoar meu padrasto. Não sinto mais mágoa ou raiva por ele. Com relação à minha mãe, não posso dizer o mesmo. Nela não confio, não busco quando tenho problemas e procuro compartilhar o mínimo da minha vida com ela.


Afastem-se das pessoas que machucam vocês. Vão até alguém de confiança. Se essa pessoa não te ouvir, vão embora. Comecem a vida de vocês em outro lugar. Vocês são os únicos defensores de si mesmos.


Tenho muitas sequelas de tudo isso. Às vezes choro muito. Às vezes penso que nunca conseguirei perdoar minha mãe. Mas busco o autoconhecimento incansavelmente e faço terapia. Tenho certeza que chegarei nesse perdão um dia. EU mereço isso.

Demorei um ano para conseguir formular esse texto em 2019.

Hoje, em 2026, ele finalmente está aqui e posso sentir o progresso que fiz com todos os cuidados e limites que me permiti ter.

Quellen Herek — Guardiã do Templo da Lua, Cunha/SP

 
 
 

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